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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Rei Arthur da Gávea: Zico comenta suas dores e glórias




Ex-craque do Flamengo revê momentos históricos no clube carioca e na seleção brasileira


Por Marcos Sergio Silva, da PLACAR 


O “envelhecimento” de Zico, brincadeira feita pela PLACAR em 1980: botamos até bigode no Galinho! / Crédito:

Rodolpho Machado


Zico, depois de 2 horas de conversa, estica as pernas e reclama do joelho esquerdo que distribuiu dores aos torcedores na década de 1980. “São seis operações, pô!” A dor não alivia os alvos: Telê, Zagallo, o Iraque e os clubes que não tiram o olho dos craquinhos do CFZ



Evolução da carreira de Zico / Crédito:

Arquivo Placar



PLACAR, há 33 anos, imaginou o Zico com 50 anos. Hoje você tem 60. Se você olhar a foto hoje, você está melhor que a gente pensava (risos)...

Foi o maquiador, né? E o maquiador era um fera da Globo na época [o polonês Eriç Rzepecki, morto em 1993]. Pior que ele me botou com bigode [risos]! Mas naquela época a pessoa de 50 anos não ficava muito longe disso. Hoje o homem se embeleza muito mais. Mas eu nunca mexi em nada. O máximo que fiz foi usar xampu (risos).



A transformação feita pela PLACAR, que imaginou Zico com 50 anos em 1980: “Eu tô a cara do John Wayne (risos). A Sandra teve coragem de tirar foto comigo”. / Crédito:

Rodolpho Machado



Você passou por várias transições, do Zico torcedor até o maior craque do Flamengo. Como elas aconteceram?

Eu era um cara apaixonado pelo Flamengo por, dentro de casa, ter um pai louco pelo clube. E ia aos extremos, como colocar a bandeira do Flamengo acima da brasileira [na casa de Quintino]. Ele teve a atenção chamada pelo meu professor de Moral e Cívica. O cara foi tomar satisfações, e o meu pai falou “na minha casa mando eu”. Eu joguei em 1972 a final dos juniores e depois fui pra arquibancada vibrar com o gol do Paulo César contra o Vasco [vitória por 1 x 0]. Na época, eu não era conhecido. Podia ir ao jogo, ninguém sabia quem eu era.



“Esta é a primeira carteirinha do Flamengo. Ih, o cara meteu a idade errada! Tá 3 de março de 1973! Então, eu estou só com 40 anos! (risos) Dá até pra jogar.” / Crédito:

Arquivo PlacarImagina sua carreira sem o Flamengo?



Não. Não tinha outra inspiração para ganhar dos adversários. Queria ganhar como torcedor. O Botafogo, mesmo. O [goleiro] Manga dava entrevista falando ‘vamos ganhar do Flamengo, já gastei o bicho’. Ficava puto.

Você tinha uma rixa especial pelo Botafogo, não?

Tinha! Era por causa do Manga, pô. Eu ia ser o único que estaria nos dois 6 x 0 [Botafogo 6 x 0 em 1972 e Flamengo 6 x 0 em 1981]. Em 1972, eu estava concentrado e, quando chegou o dia, o Zagallo me tirou até do banco e fui pra arquibancada. Quando estava 3 x 0, saí. No jogo de 1981, eu era quem mais queria por causa da bandeira de 6 x 0 que eles colocavam lá, em frente ao túnel. Eu falava: “Um dia vocês vão tirar isso daí”.



recebendo as chuteiras de carlinhos, em 1972: “Aqui foi quando o Carlinhos me entregou a chuteira. Quando entreguei para o Pintinho (Zico repetiu o mesmo gesto com Pintinho em 1989), achei que fosse também deslanchar, mas não deslanchou”. / Crédito:

Arquivo Placar Foram muitas as gerações formadas na Gávea, o que valeu a frase “craque o Flamengo faz em casa”. E aí, craque o Flamengo ainda faz em casa?



Eu me sinto satisfeito com essa geração, porque eu organizei a base. As pessoas que estavam lá não sabiam o que faziam — a não ser a comissão técnica. Eu montei um organograma: o diretor, o diretor-supervisor, o coordenador, quem vai dar satisfação a quem. Eu levei apenas quatro pessoas pra lá do CFZ: o técnico, o preparador físico, o auxiliar e o coordenador das duas categorias de mirim, um cara que revelou um monte de gente do futebol de salão.

Os jogadores, os próprios técnicos vinham até aqui [o CFZ] escolher. O [Fernando] Vanucci, técnico campeão invicto do Estadual [sub-17, em 2010], que formou essa geração do Thomás, Adryan, Rafinha, Lorran, Muralha, Romário, Mateus, Pedrinho, Digão, todos esses eram desse time. O Jádson, do Botafogo. É lógico que eles conheciam os garotos daqui. Vai falar o que disso? A gente estava se estruturando. Uma das coisas boas que a Patrícia [Amorim] me ajudou a fazer foi acabar com essa coisa de jogadores de base sobre os quais o Flamengo não tinha percentual nenhum. De todo jogador do CFZ que vai pro Flamengo, o clube já tem 50%, como tem hoje do Rafinha. A gente começou a ter atrito com empresários que davam dinheiro para o Flamengo, que estava na pendura, e quando chegava na base os caras botavam quem eles queriam. Tinha empresário que tinha 14 jogadores no profissional.

Você fala do Eduardo Uram?

É um deles [risos]... Ele veio falar comigo: “A gente tem que discutir contrato”. “Quem são os jogadores?” “Ah, é esse, esse.” “Pô, o time inteiro do Flamengo é teu?” Mas não é porque é empresário de 14 que vai ter privilégio.



Na escolinha do Flamengo, em 1967: “É meio comprometedora essa brincadeira aqui (risos). Daqui desse time ninguém jogou no Flamengo”. / Crédito:

Jornal do BrasilVocê é dono de um clube de formação de jogadores. Dá para deter a infiltração dos agentes?



Não tem como. Eu tentei abrir uma empresa, do meu filho, e através dela fazer os contratos com os jogadores. Mas é um custo muito alto. Se você fizer um contrato com um garoto de 16 anos, por mais que ele seja bom, você vai dar 2000, 3000 reais [de salário]. Tu não vai botar 50000. Então, se o garoto estourar com menos de um ano de contrato, se outro vier aqui e pagar [uma salário melhor], leva.

Mas é um trabalho difícil, de separar o joio do trigo.

Anteriormente havia um tratado de ética entre os clubes, de não pegar jogador formado em outro. Hoje não existe mais isso. Você não vê hoje muitos clubes fazendo força pra formar. Todo mundo tá pegando de outros lugares. Eu tenho minha parceria com o CFZ de Juiz de Fora. Dois jogadores [levados por outros clubes] foram para a seleção sub-17 e nem disputam campeonato: o Igor, do Cruzeiro, e o Wallace, do Flu. Sabe quem é esse? [aponta uma foto] É o Thomás. Não recebemos nada. O Thiago Alcântara, do Mazinho, passou aqui. Tivemos que botar numa categoria acima porque pegava a bola e driblava todo mundo. O Rafinha trouxemos com 14 anos. Ele foi para o Flamengo e continua morando no CFZ. Talvez o clube não acreditasse muito e não arrumava um lugar pra ele morar.



Jogando contra a Espanha, na copa de 1978: “Jogo em Mar del Plata, aquele lamaçal. Olha o campo em que a gente jogou”. / Crédito:

J. B. Scalco



Falando de seleção: aquela Copa de 1978 foi estranha. Teve a intervenção do almirante Heleno Nunes (então presidente da CBD, que anunciou as substituiçõesde Zico, Edinho e Reinaldo)...

Aquilo foi feio. Eu fiquei muito chateado com o Coutinho [Cláudio Coutinho, então técnico da seleção e do Flamengo]. Quando acabou o jogo da Espanha, o Heleno Nunes deu entrevista dizendo que tinha que entrar Jorge Mendonça, Roberto Dinamite e Rodrigues Neto. Chega no dia seguinte, o Coutinho chama o Edinho, o Reinaldo e eu no quarto dele. Quando acabou a conversa, eu falei: “Você é meu treinador no Flamengo, não precisava falar isso. O presidente deu uma entrevista antes falando quem ia sair. Você não tem que dar satisfação. Mas a gente merecia mais respeito, e não saber pelo jornal que vai sair”.



Com a Bola de Ouro de 1974: “PLACAR me deve duas Bolas de Prata. Eu vejo lá que eu tenho nove, mas em casa só tem sete!” Até a década de 90, quem vencia a Bola de Ouro não recebia a de Prata. Caso de Zico. / Crédito:

Arquivo Placar Você sentiu como uma traição?



Não, senti como uma imposição do chefe mesmo.

Em algum outro momento você viu um dirigente pesar tanto assim numa decisão?

No Iraque, sim. Chegaram a convocar atletas. Duas vezes cortei gente da delegação.



Recebendo a faixa de campeão carioca de 1974 de Falcão: “Aqui foi em 1975. Fizemos dois amistosos. O Inter veio ao Maracanã entregar as faixas para o Flamengo”. / Crédito:

Zeka AraújoAfinal, o que o atraiu no Iraque?



O Edu [irmão de Zico], quando foi pra lá, na época do Saddam, os caras davam tudo. O cara que foi intérprete veio até o Brasil pra pegar ele de novo. O Edu disse que não queria, só se eu fosse com ele. Cheguei lá e faltavam cinco dias para a estreia nas Eliminatórias da Ásia. O material humano iraquiano, se tivesse estrutura, ninguém ganhava deles. Eles são diferentes, em termos de biótipo, de qualidade técnica. Mas o campeonato é amador. O meu estádio aqui [o pequeno Antunes, no Rio] é um Maracanã perto do deles. E não tinha lugar nem pra seleção morar. A Fifa liberou Irbil [interior do Iraque]. Mas deu confusão num jogo e a Fifa vetou. [Na Eliminatória] perdemos o primeiro jogo, mas ganhamos os outros cinco. E mais problemas. Salário atrasado, a gente foi jogar no Catar, com 30 pessoas assistindo jogos. No Japão, tinha 60000.

Você conseguia dormir?

Lá [no Iraque] não. Passei mal duas vezes em Bagdá. Febre, nervoso. Cada 100 metros tem uma barreira, metralhadora para todo lado. Começa a ver que estourou bomba aqui, bomba lá. A gente ia aonde tinha jogo. Não dava para treinar. Ficava perambulando. A residência era mais na Jordânia. Passei a não falar com mais ninguém na federação. Não confiava nem no intérprete. Me pagavam com três meses de atraso.

Já havia vivido uma situação tão ruim assim?

Não. E o que eu ficava com mais cara de babaca era a gente com resultado, lutando por uma vaga na Copa do Mundo [o Iraque está na zona de classificação]. E olhando os outros países, time que já tinha sido eliminado, com 15 caras na comissão técnica. Você vai estressando.



Capa de Placar, com Sócrates, Reinaldo e Falcão: “Este é o quarteto que gostaríamos de ver jogar na Copa. Eram as posições certas, ninguém ficaria deslocado.” / Crédito:

ReproduçãoVê a seleção de 82 como a ideal?



O jogo contra o Ajax [em 1979] foi o único que eu, o Cerezo, o Falcão e o Sócrates jogamos juntos, com o Sócrates de centroavante. Não sei se a formação ideal, mas mais ideal do que a que jogou na Copa. Aquela não tinha lado direito. Ele [Telê Santana] achou que deveria permanecer o Serginho e um de nós ficar na direita. Só que a gente não treinou. Tem situações que é preciso treinar a parte tática. A gente passou toda a preparação em Portugal e nunca treinamos.

Jogo contra a França, Copa de 1986. O pênalti perdido. Era você mesmo que devia bater o pênalti?

Sempre bati os pênaltis da seleção. Se eu não bato e outro bate e perde, seria pior. Só uma pessoa poderia não deixar bater, que era o técnico. O Telê podia dizer: não bate. No jogo anterior, contra a Polônia, o Sócrates era o batedor. O que sofri nesse jogo, dei pro Careca bater. Me arrependo. Se eu bato e bato mal, não batia o outro [risos].

A preparação daquele ano foi muito longa, começou em fevereiro de 1986...

Nunca foi necessária uma concentração daquele tamanho. No dia em que deu o problema com o Renato e o Leandro, a gente teve folga de meio-dia às 20h, em Belo Horizonte. O que é que eu vou fazer em Belo Horizonte nesse tempo? Num domingo? Fiquei lá na Toca da Raposa [sede da preparação da seleção]. Não tinha ninguém lá, nem esposa, nem filho. Fui ver televisão. Quando voltei para São Paulo, me reuni com a comissão técnica e pedi para não ir mais para a Copa. Fiz o pedido duas vezes: ali e quando o Mozer foi cortado, no México. Eu tinha que me controlar porque não podia mais apoiar meu corpo na perna esquerda. Estava com o cruzado rompido. Não podia mais saltar, pular, cair com o apoio na esquerda.

Na Copa da França, em 1998, você falou que a Holanda era um exemplo de como treinar uma equipe, com treinamentos específcos para cada função.

Você tem o treinador de goleiro, da defesa e o de ataque, além do treinador geral. Dos três que treinaram, dois se tornaram grandes treinadores — o Rijkaard e o Koeman. O Neeskens optou por ser auxiliar do Guus Hiddink. Ele não tinha medo de que eles iriam dizer que ele não era o treinador.



Com Sócrates, morto em 2011, parceiro de seleção e Flamengo: “Magrão, saudade dele. Esse cara foi legal pra cacete”. / Crédito:

J. B. Scalco



Você sofreu isso?

Eu, quando fui como coordenador da seleção em 1998, uma vez o Zagallo veio falar comigo: “Olha, você não precisa colocar uniforme senão vão dizer amanhã que você é o treinador”. Eu fiquei olhando pra ele e pensando: não é possível que o Zagallo está falando isso. O Zagallo! Se eu fosse ele, com um Zico do lado, ia utilizá-lo de qualquer maneira pra me ajudar.

Você faria como o Falcão fez: treinar um time no Brasil?

Não.

Ser presidente do Flamengo?

Não.

Nunca mais vai se envolver com a vida política do Flamengo?

Não vou dizer nunca mais, mas eu não pretendo mais nenhum envolvimento. Oficial, claro.

Pelo trabalho físico antes de estrear pelo Flamengo e também pelo estilo de jogo, muita gente o compara com Messi. Faz sentido?

Não vejo muita semelhança. Acho que algumas jogadas se tornam parecidas pela objetividade. O cara sempre joga pra frente, joga simples, faz jogadas individuais. Isso pode dar certa conotação de semelhança. Mas ele é um jogador que tem muito mais habilidade e facilidade na condução da bola do que eu. Ele é o único cara que pode desequilibrar uma Copa.



Ficha técnica do Zico / Crédito:

Alexandre Battibugli


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