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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Repetição e disciplina marcam o estilo do tranquilo Dorival Júnior



Novo técnico do Flamengo implantou regras rígidas que deram certo no Vasco e conviveu com problemas de indisciplina no Santos e no Inter

Metódico e disciplinador. Tranquilo e simpático. Assim é o novo técnico do Flamengo, Dorival Júnior, que ganhou os holofotes no Vasco, com a campanha que resultou no título antecipado da Série B do Campeonato Brasileiro de 2009, e em seguida comandou o Santos de Neymar e Ganso, o Atlético-MG e estava no Inter até a última sexta, quando foi demitido. No rival Vasco, iniciou a construção do elenco com poucos tijolos para empilhar – 11 jogadores permaneceram, e o clube fez 18 contratações para a temporada. E, no Peixe, teve o mérito de apostar nos meninos da Vila, então promessas alvinegras.

No Flamengo será diferente. Com a janela para transferências internacionais já fechada, competição em andamento e necessidade de resultado imediato para afastar a crise, o treinador será testado na missão de dar padrão a um time que fez pré-temporada com Vanderlei Luxemburgo, mas atuou a maior parte do semestre sob comando de Joel Santana, sendo eliminado dos torneios que disputou.

Ex-pupilo de Muricy Ramalho no Figueirense, clube no qual o auxiliou em 2002, Dorival enxerga na repetição a essência do treinamento. É o que frisa constantemente em suas entrevistas coletivas. Não raramente, opta por treinos coletivos sem adversário, apenas com os 11 titulares se movimentando em campo contra “fantasmas”. Assim, ensaia à exaustão o que pretende ver nos jogos. Permite o rachão, mas impõe um ritmo de trabalho intenso na parte física, que fica a cargo de Celso de Rezende. Ex-volante, Dorival costuma dar bastante atenção ao posicionamento dos defensores e a saída de jogo em velocidade.

É metódico no dia a dia e tem o hábito de interferir em todos os detalhes referentes ao departamento de futebol. No Vasco, a parceria de sucesso com o diretor executivo Rodrigo Caetano, atualmente no Fluminense, acabou desgastada mesmo com o retorno à Série A. Dorival era tão minucioso que gerava pequenos atritos em situações corriqueiras. No entanto, deixou boa impressão em São Januário. No dia em que decidiu sua saída do Vasco, relatou, após reunião com o presidente Roberto Dinamite:

- Paramos. Não chegamos nem a conversar sobre dinheiro, mas, pelo ambiente, achamos ideal parar por aqui. Comando o time neste sábado e depois saio – disse o treinador, que naquele momento vinha sendo assediado pelo Grêmio.

No Flamengo, Dorival fará dupla com Zinho, o diretor executivo do futebol, e com o novo diretor de controle e finanças que a diretoria anunciou estar à procura, restringindo o poder do vice de finanças Michel Levy, que tinha ingerência sobre as contratações. Terá de conviver, ou tentar corrigir, uma situação com a qual tem dificuldades para lidar: o vazamento de informações – questão que Caio Júnior, em 2008, já criticava na Gávea. A divulgação de informações de bastidores sobre sua negociação para renovar, ou não, o compromisso com o Vasco pesaram na sua decisão de sair no fim de 2009.

No Santos, em 2010, a divergência de pensamento em relação à diretoria determinou a sua demissão. Durante jogo contra o Atlético-GO, pelo Brasileirão, Dorival não deixou Neymar cobrar uma penalidade, pois já havia desperdiçado algumas. Revoltado, o jovem se descontrolou e xingou o técnico no gramado. O ato de indisciplina causou a Neymar uma suspensão imposta pela diretoria. Dorival considerou a punição muito branda. Na véspera do clássico, concedeu entrevista coletiva anunciando que Neymar continuava fora, surpreendendo os dirigentes, que o demitiram. Antes, na final do Paulistão, já havia mostrado que estava perdendo o controle sobre o grupo, quando Ganso se recusou a deixar o gramado para ser substituído no fim.

Em Porto Alegre, onde conviveu com inúmeros desfalques, também teve de lidar com problemas de indisciplina. Por causa de atrasos de Dagoberto e Tinga em um treino, deixou-os no banco em partida do Inter contra o Santos, pela Libertadores. Mas o maior problema de relacionamento foi com Jô. Primeiro, o atacante não compareceu ao aeroporto e ficou fora de viagem para Manizales, na Colômbia. Recebeu um duplo gancho, com afastamento e multa. Mas foi reincidente. Após a desclassificação diante do Fluminense, pela competição sul-americana, não voltou com o restante do grupo para a concentração com Jajá, durante a noite. Rescindiu e assinou com o Atlético-MG.

Antes disso, no entanto, já mostrava o quanto considera a disciplina importante em seu trabalho. No Vasco, ele e Rodrigo Caetano implantaram uma rígida cartilha. E deu certo. Tanto que Carlos Alberto, conhecido pelo temperamento forte, tornou-se líder e capitão do grupo sob o comando do treinador, com conduta exemplar. Diferentemente da cartilha divulgada no Ninho do Urubu pelo ex-gerente Jairo dos Santos, que virou avião de papel nas mãos dos jogadores, o documento com 35 leis elaboradas pela dupla abordava os mais diversos detalhes, estabelecendo multas pesadas até para quem ultrapassasse um limite estabelecido de peso.

A cartilha, por exemplo, multava em R$ 500 quem usasse boné em fotos oficiais, valor que dobrava para o caso de uso de celular em local inadequado, como vestiários, departamento médico, restaurante e até no ônibus que transportava o elenco. Usar material de treino na concentração também acarretava multa de R$ 1.000. Para questões disciplinares, com valores e penas a serem estipuladas pela direção, ficava o aviso de que a consequência poderia ser pesada. Dizia a cartilha cruz-maltina: “Para cálculo de multas, será considerada toda a remuneração paga pelo clube ao atleta, podendo a multa chegar ao valor equivalente a três salários mensais”.

Até mesmo os uniformes usados pelos atletas tinham suas restrições: “Cada atleta terá direito a uma camisa por jogo. Se a segunda camisa for retirada, será descontado o valor equivalente a cinco vezes o preço da camisa na boutique do clube”, determinava. O documento abordava também a relação com a mídia: “O atendimento à imprensa deverá ser realizado sempre que solicitado pela assessoria de imprensa do clube”.

A tranquilidade com que sempre lidou com vitórias e derrotas é outra característica que marca o estilo Dorival de ser. À frente do Inter, não se empolgava com vitórias e evitava se abalar com derrotas, assim como em sua passagem pelo Atlético-MG, chegando a ser rotulado como uma espécie de psicólogo do time. No entanto, durante o Brasileiro do ano passado, o fato de não demonstrar abatimento com a fraca campanha do time gerou críticas da imprensa e protestos da torcida pela forma passiva com a qual assimilava a situação.

Fonte: Globo Esporte.com
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