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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Dorival Júnior: administrador de problemas espera sorrir no Flamengo

Técnico revela sua filosofia, cobra profissionalismo do jovem ao craque, lembra caso Neymar e é admirador do Rio, do samba e de Jorge Aragão

Como jogador de futebol, Dorival Silvestre Júnior atuou de volante e passou por clubes como Palmeiras e Grêmio. A vontade de estar no Rio e no Flamengo foi realizada já como técnico, cargo que ocupa há sete dias. E uma nova filosofia entra em campo com o profissional que defende o trabalho árduo como caminho para vitórias, questiona éticas morais no futebol e na sociedade e gosta de desafios. E de samba também. Nascido há 50 anos, em Araraquara, São Paulo, Dorival Júnior tem Jorge Aragão como uma de suas referências no batuque. O novo comandante espera superar o começo complicado no Rubro-Negro para cantarolar em um futuro breve.
Dorival Júnior concede entrevista: desafio à frente do Flamengo (Foto: Janir Júnior / Globoesporte.com)

Tática, técnica e qualidade são exaltadas por Dorival. Mas, além desses pilares, ele apresenta um sinônimo para técnico de futebol.

- Acredito que o treinador não seja nada além do que um administrador de problemas. Um gerenciador de pessoas – disse.

Casado há 27 anos, pai de três filhos, Dorival é defensor ferrenho da ética moral, da família e do profissionalismo. Não tolera atrasos, cobra postura dos jogadores, seja da jovem promessa ou do craque consagrado e mais valorizado. Teve problemas com Neymar, resolveu, mas deixou o Santos em 2010 por divergências com a diretoria em relação à punição ao atacante.

- As decisões têm de ser tomadas de maneiras sempre iguais, quer seja para um garoto que esteja subindo com 17 anos ou para o veterano, o maior salário da equipe, o principal jogador.

Dorival começou no Figueirense e teve passagens pelo Fortaleza, Criciúma, Juventude, Sport, Avaí, São Caetano, Cruzeiro, Coritiba, Vasco, Santos, Atlético-MG e Internacional até dirigir o Flamengo. E chegou a uma constatação:

- O futebol, infelizmente, tem nos mostrado um lado promíscuo, um lado onde as pessoas, em todos os segmentos, inclusive o treinador ou o grupo de treinadores, estão se prostituindo sobremaneira.

Ele está de volta ao Rio de Janeiro, cidade pela qual alimenta admiração:

- O trabalho do carioca com o futebol é muito mais romântico. Eu sinto que no Rio as coisas acontecem, e o dia a dia é muito mais agradável, muito mais vivido do que em outras equipes.

Como bom carioca por adoção, ele gosta de samba, se arrisca no pandeiro, exalta a formação de uma roda de músicos e os duetos de improviso. Mesmo em pouco tempo, o trabalho já começou com o time sob pressão. Dorival brinca ao ser questionado se daqui a um mês poderá ser flagrado cantarolando a canção “Coisa de Pele”, na letra que diz “podemos sorrir, nada mais nos impede”.

- (risos) Quem sabe? Até porque o Jorge Aragão para mim é um ídolo – revelou Dorival Júnior.

No Flamengo do novo treinador, resiste quem pode à força dos nossos pagodes. Ou melhor: da nova filosofia de Dorival.

Leia a íntegra da entrevista de Dorival ao GLOBOESPORTE.COM.

Virou uma máxima no Flamengo entre jogadores e técnicos dizer que o clube é diferente de todos os outros, por motivos positivos e negativos. Pelo ambiente, pressão, repercussão na mídia. Você chegou há uma semana. Nesse tempo, acredita que isso é verdade?

Toda verdade ou inverdade dita ou colocada por muitas pessoas é natural que passe a ser realidade. Queira ou não, é uma situação que você tem obrigação de tentar enfrentar. Independentemente disso, todo profissional deseja trabalhar no Flamengo. Seja jogando, numa comissão técnica. Realmente é um clube diferente em alguns aspectos. Acho um desafio necessário na carreira de todo profissional. Agradeço muito a oportunidade e confiança de poder estar aqui. Vou tentar fazer o melhor dentro do que sempre me preparei para atingir trabalhos em clubes desse porte. E acho que sempre conseguimos alcançar resultados que eram esperados. Naturalmente, um ou outro trabalho ficou pelo meio do caminho, mas o importante é que você possa deixar o clube no mínimo 20% melhor do que na sua entrada. Essa talvez seja a maior preocupação de todo profissional.

Você falou em desafio de treinar o Flamengo. Até então, quais os maiores desafios que enfrentou como técnico?

Cada equipe tem suas particularidades. Comecei no Figueirense, que havia subido da Série B para a Primeira Divisão há apenas um ano, um desafio dificílimo, trabalhando com dificuldades. Fizemos dois Campeonatos Brasileiros, alcançamos a Sul-Americana. Depois, encontrei no Fortaleza uma equipe também subindo da Série B para a Série A, com apenas seis jogadores contratados, alguns outros que haviam ficado, 12 no total, tiramos três ou quatro que estavam indo para a Copa São Paulo de Futebol Júnior, começamos a remontar a equipe e depois chegaram outras contratações. No Sport foi a mesma coisa. Chegamos ao fim de 2005 com apenas seis jogadores e dois anos depois essa mesma equipe, além de ter ganho os campeonatos regionais, subiu da Série B para a A, conquistou a Copa do Brasil. Fui para o São Caetano, que havia caído... Então, cada clube apresentava uma condição diferente. Até o momento que chegamos ao Coritiba, Santos, Vasco, Internacional, enfim. Cada clube apresenta uma dificuldade, problemas, um desafio novo. Até porque os problemas não são os mesmos de clube para clube. Aquilo que deu certo em um com certeza não vai ser a mesma receita para que você coloque no outro. E você tem que tentar detectar o mais rápido possível todas essas condições para começar a atacar, a trabalhar, e a valorizar o que naturalmente venha sendo muito bem conduzido.

Você diz que para cada clube existe uma receita. Mas e a sua própria? Você cobra seriedade, muito trabalho. Como é o Dorival na carreira de treinador?

Antes de me tornar treinador, observei muitos profissionais. Nos últimos cinco, seis anos de carreira, direcionava o que sentia que era bom ou o que não era para que pudesse moldar o que desejava para ser treinador de futebol. Observava reações dos jogadores, trocava muitas ideias. Na maioria das equipes em que passei, fui capitão. Então, é natural que você tenha um trânsito mais próximo com a comissão técnica, os treinadores. Isso traz uma análise de maneira diferente. Acho que tem que ter uma maneira de se conduzir perante o grupo. Esse grupo te analisa, avalia a cada momento, sua atitude ou decisão tomada. As decisões têm de ser tomadas de maneiras sempre iguais, quer seja para um garoto que esteja subindo com 17 anos ou para o veterano, o maior salário da equipe, o principal jogador. É preciso passar essa confiança ao seu grupo de trabalho para que você possa exigir aqui dentro, em treinamento.
Dorival conversa com os jogadores: muito trabalho pela frente (Foto: Alexandre Vidal / Fla Imagem)

Você é um defensor do trabalho no dia a dia, exige muito...

Acho que você ganha jogos aqui (aponta para o campo principal do Ninho do Urubu), e não no dia anterior da partida, mostrando num quadro a movimentação, a maneira como a equipe adversária teoricamente pode atuar. O desgaste maior é aqui dentro, você tem que transpirar aqui dentro para, daí sim, usufruir ao longo dos 90 minutos da partida. São algumas características que você formata, melhora, amadurece com o passar do tempo, tentando se manter atual e sempre em condições de poder transformar a confiança das pessoas que te contratam em resultados.

Telê Santana era um técnico que defendia tese parecida e adepto dos trabalhos de repetição, colocava um balde no gol para o jogador acertar, por exemplo. O Dorival segue essa linha? Em algum momento o Telê serviu de inspiração?

É verdade. Telê foi um dos meus treinadores no Palmeiras. É natural observar alguns profissionais. Tentei fazer isso e passar aos grupos que comando. Seu Telê realmente tinha essa característica. Eu acredito que o futebol seja basicamente repetição. Não foge desse contexto. É preciso aliar outros fundamentos, e o principal deles é a qualidade de um grupo. Caso não tenha tantas qualidades, existe a obrigação de tentar levar esse grupo ao limite que ele possa chegar. Acho que esse é um trabalho direto e específico do treinador, da comissão técnica. Acredito que o profissional só trabalhe instigado por um objetivo qualquer mostrado pela comissão. Sempre coloco que as atitudes de um treinador têm de ser multi-iguais. Quer seja com um garoto ou com um profissional experimentado. Esse mesmo grupo vai te cobrar lá na frente qualquer deslize que venha a acontecer. Acredito que o treinador não seja nada além do que um administrador de problemas. Um gerenciador de pessoas. Passa muito por esse lado. E naturalmente essa preparação que você tem que ter a parte tática, técnica, para que você possa tentar implantar um sistema de trabalho, mas que basicamente seja vinculado a essa administração do dia a dia. Isso é o maior desgaste que acontece. Talvez por isso os trabalhos dentro do nosso país não tenham tanto tempo para iniciação, maturação, uma correção, para só depois atingir seus objetivos, os resultados. Geralmente o treinador que monta não é o mesmo que chegará ao fim do processo. Nós estamos com duas das principais bases da formação de um ser humano, que são a educação e a família, falidas hoje em dia. E esse imediatismo que é cobrado de todo mundo faz com que esses trabalhos sejam precipitados, interrompidos no meio do caminho. E nem sempre aquilo que um profissional tenta passar ele é entendido de uma maneira respeitosa. Até porque você trabalha sempre com 30 pessoas, 11 estão satisfeitas, sete estão mais ou menos satisfeitas, e você tem 12, 13, 14, 15 totalmente insatisfeitas por não terem sido convocadas para aquela ou para mais partidas.
Dorival e Vagner Love, o principal jogador do Flamengo atual (Foto: Alexandre Vidal / Fla Imagem)

Já dá para notar nos primeiros treinos um grupo mais vibrante, falante. Os jogadores parecem se cobrar mais. Acha que já conseguiu contaminá-los com o seu estilo?

Seria hipócrita ao afirmar uma situação dessas. É muito pouco tempo. Você tem que tentar entender o quanto antes o seu grupo, detectar as coisas boas, as coisas que não estão acontecendo, para que possa passar a atuar. É natural que a maneira como você se comporta tenha um peso muito grande. Mas acho cedo para que possa chegar a uma condição como essa. O dia a dia do futebol é desgastante ao extremo. Esse convívio, esse lance de você ter que tirar, trocar, mudar, motivar. Ao mesmo tempo não dá uma oportunidade ao profissional que acha que mereça. Mas nem sempre o tempo do jogador é o mesmo do treinador. Então, isso tudo causa um desgaste profundo.

É preciso administrar egos?

Hoje em dia, o jogador brasileiro não tem muita paciência, não tem muito equilíbrio. Às vezes, é instigado por um orientador, que nós chamamos aí de empresário, mas que nem sempre são pessoas preparadas para orientar adequadamente o profissional. Ele acha que no momento em que está numa equipe tem obrigatoriamente que ser o titular, não pode passar por um processo de formatação, de crescimento, um processo natural onde o cara daqui a pouco vai brigar pela posição. Ele enxerga o atleta sendo a galinha dos ovos de ouro dele, começa a criar um conflito na cabeça desse menino. O próprio garoto talvez não seja tão preparado para poder diferenciar aquilo que seja correto, acaba transferindo para o treinamento. Você percebe que o cara não está bem no treinamento, começa a cutucar porque quer que ele melhore, porque precisa dele. De repente o profissional não entende dessa forma. Passa a ter reações difíceis de serem controladas, é o que tem acontecido na maioria dos nossos clubes. Nós não estamos nos dando conta de tudo isso, mas é um processo irreversível, ruim, prejudicial para todo mundo. Existe um desgaste grande de todos os profissionais envolvidos no futebol, provocando uma condição em que o atleta brasileiro ou joga ou quer sair do clube. Criando uma situação muito desconfortável, prejudicando a harmonia que existe dentro do elenco, que é muito difícil de atingir. Os poucos clubes que atingem conseguem grandes resultados, mas na sequência já são quebrados. Isso tudo tem um peso muito grande e às vezes decisivo para que uma equipe possa ou não chegar.

Você concorda que às vezes o jogador não sabe diferenciar os termos jogador de futebol e atleta? Que o jogador de futebol tem uma carreira curta, mas o atleta consegue prorrogar por mais anos sendo profissional, tendo postura?

Concordo. Só que é um pouco mais abrangente. Isso a gente está vendo na sociedade. Nós perdemos noção de valores, perdemos a compostura. Palavra respeito não existe mais. Essa inversão de valores tem proporcionado situações que nós observamos em todo país. Isso começa pela ponta da pirâmide. As pessoas que comandam não dão bom exemplo. Não são punidas. Num país em que não existe punição, não existem regras, as leis são desrespeitadas. É natural que a própria condição social acabe inibindo qualquer situação em que você possa se fortalecer como cidadão. E isso tem sido transportado ao futebol. O futebol, infelizmente, tem nos mostrado um lado promíscuo, um lado onde as pessoas em todos os segmentos, inclusive o treinador ou o grupo de treinadores, estão se prostituindo sobremaneira. O jogador confunde aquilo que é obrigação, o que é direito, dever de cada um deles. Sempre transgredindo e passando na frente. Nós perdemos essa noção de respeitarmos o próximo. E isso tem trazido também para o futebol profissional uma condução que o próprio atleta acaba se perdendo. Falta educação, falta base familiar, falta tudo. E você vem para um convívio social dentro de um grupo onde de 30 podem jogar apenas 11. É natural que você já vindo e chegando sem uma base você jogue para dentro de campo tudo que você deixou de aprender. Acaba comprometendo o trabalho de qualquer pessoa que seja envolvida com grupos.

Existe no Flamengo um símbolo maior, que é a camisa 10. Desde que o Ronaldinho saiu, essa camisa, que ficou marcada por Dida e Zico, não é utilizada. Já pensou sobre isso, existe uma ideia em relação a esse ponto?



É natural que um clube que sempre primou por ter grandes jogadores na posição - para mim um dos maiores que vi jogar, que foi o Zico, teve o Dida - sempre busque na função um atleta que esteja à altura do que representa a camisa 10 do Flamengo. Eu entendo essa situação, mas tenho que trabalhar com grupo que aqui está, tentar valorizar o máximo possível, tirar o máximo possível de cada um deles. Eu não vou ficar lamentando se tenho esse ou aquele jogador que eu gostaria de ter. Vou procurar fazer o meu melhor, procurar trabalhar dentro de uma condição como essa. Até porque se nesse momento não temos tantas opções em busca de um nome, uma contratação que venha suprir uma condição como essa, daqui a pouco ela pode acontecer. Confio muito no trabalho do Zinho, é uma pessoa muito correta, não tenho dúvidas de que neste sentido vai tentar mudar a cara do Flamengo. Vai trabalhar para que aconteça. Desde que tenha tempo para desenvolver o seu melhor, desde que tenha a confiança das pessoas.

Considera ele pronto para esta função?

É uma pessoa séria, eu o conheço há alguns anos. Tive a oportunidade de trabalhar com o Zinho, uma das pessoas mais sérias que conheci dentro da minha carreira. Era alguns anos mais novo do que eu, aprendi muito mais com o Zinho do que com outros profissionais mais experimentados e vividos. Para mim sempre foi uma referência como atleta. E é natural que tenha um preparo diferenciado para estar à frente, numa posição tão difícil, complicada, como ele abraçou nesse momento. Não tenho dúvidas de que ele vai conseguir fazer com que o Flamengo volte a ser uma equipe respeitada, uma equipe forte no cenário nacional.

Você fez um trabalho no Santos reconhecidamente bom, de resultados, e trabalhando com uma equipe muito jovem. Houve o episódio da sua saída que envolveu o Neymar. Talvez o Flamengo, dos clubes que você assumiu depois, seja o que tenha mais garotos. Mudou a sua forma de trabalhar com jovens talentos depois daquilo?
Dorival sorri junto a Ganso e Neymar, em
reencontro durante a Libertadores (Foto: EFE)

De uma forma geral, todo mundo aprende com os episódios. Quer eles sejam favoráveis ou não. Quer eles sejam agradáveis ou não. O que eu vejo é que aquele episódio do Neymar realmente estava totalmente superado. E só saí do Santos porque a diretoria não deixou que houvesse uma punição técnica, porque existe a punição administrativa, que nem sempre é uma punição exemplar, nem sempre é uma punição que o próprio grupo aceite. O grupo espera um posicionamento, no sentido de que exista uma punição técnica dada por quem comanda, pelo treinador. E naquela ocasião a diretoria do Santos havia entrado há apenas nove, dez meses, estava praticamente no início de trabalho. Eles tinham tido até então poucas situações em que eles tinham de ter atuado. Não haviam tido essas experiências ainda, era muito pouco tempo de trabalho e aquele grupo vinha se comportando de uma maneira exemplar. O que aconteceu naquele instante foi que houve uma mudança de comportamento do Neymar. Na verdade, ele não foi nem ofensivo comigo, foi muito mais com Edu Dracena e com Roberto Brum. Ele discutiu com os dois naquela partida, culminando com o momento que eu o tirei da batida do pênalti, e aí sim ele fez um gesto. Mas entrei no vestiário e ele automaticamente foi na minha sala pedir desculpa e tal. Naturalmente que eu falei para ele: “Ney, você errou, você sabe disso, agora você vai ter uma punição. Ele falou: “O que você determinar para mim”. Só que a diretoria do Santos não deixou eu punir. Ali achei que não seria conveniente a minha permanência. E com que cara eu chegaria na frente do grupo cobrando de um outro atleta uma situação!? Não havendo essa possibilidade, tentei mostrar isso para a diretoria, que não entendeu dessa forma. Com o Neymar, foi importante, ele teve uma mudança comportamental, um crescimento. Entendo isso, foi muito bom que tenha acontecido. Naturalmente interrompemos um trabalho que poderia ter sido maravilhoso pela forma como vinha sendo desenvolvido. Mas eu não me arrependo em nada daquilo que aconteceu, e tenho certeza que foi importante para o crescimento de um grande jogador.

Na sua chegada ao Flamengo, teve a preocupação de procurar cada garoto? Houve uma atenção diferente com Adryan, Mattheus, Thomás, Muralha, Luiz Antonio?

Isso vai acontecer naturalmente. É natural que você crie algumas situações para que você possa tratar com os garotos, e eu sempre procurei dar uma atenção especial a esses meninos em todos os clubes que passei. Eu acho que faz com que você amadureça algumas situações, antecipe algumas condições, para que você possa tentar implantar dentro de um grupo, principalmente um grupo tão jovem assim como o Flamengo. Isso é um fato normal e só acontece com episódios como esse (com Neymar). Faz com que você cresça de alguma forma, porque essa troca é o que acontece na nossa vida. Uma troca constante de experiência, de momentos em que se você estiver atento acaba percebendo e modificando o seu próprio padrão de trabalho e comportamental.
Dorival tem estilo ativo e falante nos treinamentos diários (Foto: Alexandre Vidal / Fla imagem)

Quem é o Dorival fora das quatro linhas? Chama a atenção que você bate na tecla sobre a família. Você é pai, é casado, e discute sobre as questões do país.

Sou um cara tranquilo, pai de três filhos, 27 anos de casamento. Gosto muito de música, procuro a leitura, algo necessário para qualquer um. Não tenho um gosto específico. Acompanho futebol, é a minha vida. Vejo jogos das séries A, B, C, o que for. Procuro me manter sempre atualizado. Sei que a exigência do clube seguinte vai ser sempre grande. Vivo com simplicidade, porque acho que o ser humano não pode alterar sua maneira de ser, independentemente da situação que viva, das coisas que tenha passado, aprendido ou não. E procuro respeitar ao máximo as pessoas que estão do meu lado. Isso é fundamental para qualquer um de nós, para um bom convívio. Não levamos nada dessa vida a não ser amizades e bons exemplos. Não vejo motivo nenhum para extrapolar em qualquer sentido que seja.

Você passou um tempo no Rio, no Vasco, o que você pegou do carioca? Chegou a ir num samba? Gosta?

Sempre gostei, sempre acompanhei muito samba, desde garoto. Aprendi a gostar de samba com um grande amigo em Araraquara, um dos grandes sambistas que eu vi, o Pitoco. Amigaço e me fez conhecer samba desde pequeno. Chegavam dois LP’s de samba-enredo em Araraquara, e um era dele. O outro eu não sei quem comprava (risos). E com isso a gente passou a gostar, ele sempre foi um cara que tocava todos os instrumentos, fez parte da ala de compositores de algumas escolas de samba de São Paulo. E um cara muito integrado, me mostrou o samba. Passei a ler tudo sobre o samba, a conhecer um pouco do samba.

O Rio é uma cidade onde você está à vontade?

Queria conhecer o dia a dia do Rio. Era um sonho meu. Por isso que sempre quis a oportunidade de ter jogado numa equipe carioca. Achava que meu estilo de jogo era muito mais parecido com uma equipe do Rio do que com São Paulo. O Rio sempre foi um futebol mais vistoso, mais jogado, mais técnico. Já em São Paulo a mudança foi mais rápida. Aquele futebol de pegada, de marcação. Eu sempre procurava e sentia que poderia no Rio chegar um pouco mais longe do que eu cheguei na minha carreira. Mas não aconteceu. Eu sempre tive o Rio de Janeiro como um objetivo de vida, interessante isso. Sempre que vinha aqui me sentia muito bem. Tendo a oportunidade de trabalhar nas duas principais equipes de muitos estados aí, eu percebi o quanto é diferente você trabalhar dentro do Rio, tendo a oportunidade de trabalhar também aqui com o Vasco, e agora com o Flamengo. Você percebe muito mais a paixão do carioca pelo futebol. Em outros estados, como existem apenas duas equipes, você vê o quanto é acirrada a disputa e aqui ela é muito mais diluída, fazendo com que o futebol seja muito mais bonito, vistoso. O trabalho que existe do carioca com o futebol é muito mais romântico. Eu sinto que no Rio as coisas acontecem, e o dia a dia do futebol é muito mais agradável, muito mais vivido do que em outras equipes, que ele é muito mais cobrado, mais exigido.

Acha que daqui a um mês vamos flagrar você cantando ‘Podemos sorrir...nada mais nos impede...’

(Risos) Quem sabe?! Até porque o Jorge Aragão para mim é um ídolo. Sempre acompanhei a vida, a trajetória dele. E eu o tenho como um poeta, um dos grandes compositores.

Gosta da música ‘Coisa de pele’?

Gosto. Acho linda. Assim como outras do Jorge. “Malandro” mesmo é uma música maravilhosa. Talvez aquela que mostrou o Jorge Aragão para o Brasil. Acho que a história do samba é muito rica, muito bonita. Gostaria de conhecer muito mais sobre samba. Aliás, não conheço nada. Gostaria de acompanhar, de viver muito mais, de poder frequentar a todo momento esses barezinhos onde a gente vê um grande cantor ali no palco e, de repente, dois ou três, visitando, são chamados ali. São duetos que a gente nunca vai ver em gravações, DVD’s. Só o Rio proporciona isso. O Rio é o berço, a casa. Acho que aqui o samba acontece, o samba nasceu. O samba foi mostrado para o mundo todo.

Você samba, Dorival?

Nada.

Toca algum instrumento?

Eu até tento acompanhar, mexo com um pandeiro. Acompanho, acompanho, mas se tiver que puxar sozinho...

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